A Fábrica, um projecto de Ricardo Bofill

Miguel Guimarães Miguel Guimarães
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Por volta de 1973, um jovem arquitecto espanhol chamado Ricardo Bofill descobriu um complexo industrial situado nos arredores de Barcelona, tal que viria ser um marco na sua carreira. O lugar em si continha algo inquietante e um potencial que somente os olhos do arquitecto souberam ver. Após dois anos de intenso trabalho, a enorme obra de betão, velha e abandonada, convertia-se assim num lugar totalmente diferente: os silos seriam transformados em espaços de trabalho e de arquivos,  foi criada uma biblioteca e  um laboratório de modelagem. A nível mais pessoal, o arquitecto desenhara a  ‘’catedral’’, um espaço criativo e de exposição situado numa das naves deste edifício. Esta antiga fábrica, para além de ser residência do autor, é também a sede do seu estúdio de arquitectura, cuja equipa é formada por sociólogos, filósofos, matemáticos, engenheiros e por fim, arquitectos.

A Fábrica é  um lugar que convida a criatividade, a contemplação, o silêncio e a reflexão, e hoje vamos explorá-la um pouco mais neste artigo!

O início

Esta antiga fábrica de cimento foi construída durante a fase inicial da industrialização em Barcelona, mais precisamente na localidade de Sant Just Devern. Tratava-se da cimenteira mais antiga de Espanha e quando o arquitecto soubera do seu encerramento, decidiu explorar esse maravilhoso lugar. O espaço em si não se ajustava a qualquer planta original, pois este edifício na sua totalidade, resultara de uma justaposição de diferentes elementos e volumes que foram adicionados uns aos outros, em resposta à evolução da fábrica.

Com uma arquitectura bruta, espaços abandonados e parcialmente em ruínas, esta era uma obra se aproximava de um cenário surrealista: escadas que não iam para algum lugar em concreto, peças de ferro penduradas sem nada, imensos espaços vazios…  Felizmente, uma das grandes capacidades dos arquitectos é a de ver para lá do existente, contemplar e ser capaz de transformar os espaços. Pela visão do arquitecto Ricardo Bofill durante a sua primeira visita à antiga fábrica de cimento, ele sabia que para lá daquelas superfícies escuras,  sujas e feias, haveria a possibilidade de fazer algo extremamente belo.

O projecto

Em dois anos -tempo que durou o processo de transformação da Fábrica-  a maior parte da antiga estrutura foi demolida e sobreviveram apenas 8 dos 30 silos que originalmente a compunham. As suas galerias subterrâneas com mais de 4 quilómetros de extensão e as enormes salas de máquinas, deram lugar a formas que tinham permanecido ocultas e que se recuperaram para o projecto. Por fim e definidos os espaços a serem utilizados, o próximo desafio foi em encontrar as funções adequadas para cada um desses novos lugares. No entanto e ao contrário do funcionalismo (que cria oportunidades a partir da função), neste projecto existiu um processo inverso: os espaços pré-existentes adaptar-se-iam à função pensada pelo arquitecto.

A catedral

A ''catedral'' é o nome dado à enorme nave existente na Fábrica e é um espaço que existe para eventos culturais e exposições. Poderão os mais críticos  pensar que se trata de um termo pretensioso, mas na realidade, este lugar assemelha-se às velhas catedrais góticas. O seu espaço caracteriza-se pela dimensão e estética que criam uma atmosfera interior ( encontrando-se entre o pós-modernismo e do gótico catalão). Na ''catedral'', os funis antigos da cimenteira estão pendurados no tecto sobre as mesas de reuniões, ao mesmo tempo que o espaço, aparentemente compacto, abre-se para o exterior através das paredes envidraçadas, conectando-se assim com o jardim.

O jardim

Uma obra como esta não poderia estar isenta de uma proposta para o seu exterior. A ideia do arquitecto em criar um agradável jardim em torno da Fábrica, transformara radicalmente a paisagem. Assim sendo, em redor dos seus silos plantaram-se eucaliptos, oliveiras, ciprestes e palmeiras, deixando-se as heras cobrirem as paredes. Uma maneira de sugerir um estado de  abandono, mas um pouco mais selvagem e mágico, tal como um castelo escondido no meio do bosque.

Uma estética intemporal

O espaço da Fábrica é como um labirinto cheio de voltas e reviravoltas, onde cada um pode desenvolver as suas actividades de uma forma independente. Neste lugar, tal como afirma o autor, o luxo está no espaço.  O seu interior mistura-se com uma estética brutalista, fruto da construção original e com uma aparência romântica: janelas de inspiração gótica e longas cortinas com tons brancos.  Os livros que ocupam as prateleiras e os esboços de plantas que enchem as mesas, dão uma vida nova a este espaço  minimalista. A escada branca, imaculada e suave, parece sair do nada e ao mesmo tempo estar ao ponto de desaparecer pelo meio do betão. As luzes quentes criam um ambiente velho, rústico e solene… Esta é a Fábrica de Ricardo Bofill, um lugar onde não se procura o funcionalismo mas sim, uma estética que surpreende e emociona. Prova disso são estas estruturas que para nada servem, que são inúteis… No entanto ali existem, desafiando o céu, lembrando-nos da importância da arquitectura para o mundo e a beleza de conquistar a brutalidade da matéria.

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